A derrocada de uma moeda...e de um país
A derrocada de uma moeda...e de um país

A derrocada de uma moeda…e de um país

As primárias Argentinas, isto é, o início do processo eleitoral para eleição de presidente no país, mostrou que o atual presidente, Maurício Macri, dificilmente terá um segundo mandato. Alberto Fernandez, o candidato peronista de Cristina Kirchner, deve ser o próximo presidente argentino. Esse resultado inesperado desencadeou uma derrocada, já a bastante tempo anunciada, do peso argentino e, consequentemente, de sua economia.

Para entender os impactos dessa realidade no cenário Argentino, leia esse artigo!

Situação Argentina, o Peso Argentino e Taxas de Câmbios de Emergentes

Maurício Macri assumiu em 2016 como o presidente que iria implementar uma agenda de mercado para a Argentina. Porém, fracassou política e economicamente, principalmente por adotar uma política de mudanças graduais na economia. No momento de maior estabilidade em seu governo, em seus dois primeiro anos, 2016 e 2017, o peso argentino desvalorizou só 40%, saindo de ARS 13/US$ para cerca de ARS 19/US$.

Nos anos posteriores, o peso já havia batido ARS 45/US$ e atingiu ARS 60/US$ com a sinalização das eleições. Nesta última leva da desvalorização, o peso chegou a perder mais de 30% de seu valor frente ao dólar em um só dia. Em um país que a inflação anual é de 50% e a taxa de juros está acima de 70% ao ano, não há política monetária que segure este tipo de desvalorização.

Como quase toda a economia argentina é ancorada no dólar, o processo de desvalorização da moeda gera uma bola de neve. Ou seja: eleva a inflação, eleva os juros e aprofunda a queda da atividade econômica. Desde o início do governo Macri, a Argentina já entrou em recessão duas vezes e o PIB está, atualmente, caindo 5,8% na comparação ano contra ano. A inflação que já é de mais de 50%, deve chegar a 70% até o final do ano.

O efeito deste contexto argentino não ficou só na província do Rio da Prata, mas se espalhou pelos emergentes. O investidor internacional não quis nem saber se as reformas estão sendo implementadas no Brasil e se Erdogan está sendo pressionado a mudar a política econômica com a perda das eleições em Istanbul. As moedas de emergentes todas sofreram. O Real voltou para mais de R$ 4/US$ e a Lira turca perdeu mais de 5% no período.

Claro que a desvalorização forçada da moeda chinesa e o nervosismo dos mercados com a guerra comercial e seus efeitos ajudaram este contexto global. Mas não há dúvidas que o efeito tango teve seu impacto.

A atuação de Macri frente à crise

Por mais que todas estas notícias pareçam ir ao encontro da derrocada do peso argentino, o governo Macri, numa tentativa desesperada de retomar a chance nas eleições do quarto trimestre, implementou uma rodada de políticas populistas. Algumas foram o congelamento dos preços de determinados produtos (gasolina e energia) e a redução de impostos para determinados setores, jogando ainda mais incerteza acerca da própria condução de curto prazo da economia no país.

Além disso, o candidato quase vencedor, Alberto Fernandez, já anunciou sua intenção de renegociação do acordo com o FMI. Ou seja, mais uma chance de um novo default para a economia Argentina. Quando se imagina que o tango está no final, há sempre um drama adicional.

Vale lembrar que a Argentina foi uma das maiores rendas per capita do mundo no pós guerra. As políticas econômicas populistas dos últimos 50 anos levaram um país que já foi rico e bem posicionado em termos de recursos naturais a um subúrbio pobre, mal administrado e muito mal educado com o investidor externo.

A esperança de modificação desta história triste foi depositada em Macri, que falhou peremptoriamente. A questão que sobra para a gente é que muito investidor acreditou que a mudança estava para vir para a Argentina durante o governo Macri e o efeito está aí: a derrocada definitiva da moeda do país.

Entenda os próximos cenários

Os cenários já eram desafiadores e agora são dificílimos, entenda abaixo:

Cenário 1  (maior probabilidade)

Fernandez se elege presidente, anuncia novo default e afasta investidor externo da economia por mais uma década. Economia se fecha naturalmente e liquidez pela moeda Argentina se retrai ainda mais. Neste cenário, a Argentina se torna uma economia ainda mais fechada, o peso perda mais convertibilidade e os preços são totalmente ancorados ao dólar, mesmo que opção de governo seja por não abrir mão do política cambial.

Vale lembrar que a Argentina possui um volume de reservas internacionais muito baixo o que confere incentivo adicional ao novo governo de dar default e fechar a economia. Neste cenário o câmbio perde funcionalidade na economia e sua liquidez internacional retrai bruscamente.

Cenário 2 (média probabilidade)

Fernandez se elege presidente, entende que default é péssima opção e flerta tanto com o mercado, quanto com o populismo. Esse cenário lembra muito o que se passou no Brasil no segundo mandato de Dilma. Ministro da Fazenda de mercado, tentativa de reforma da previdência e ajuste fiscal. O resultado desastroso só é alongado no tempo e o novo default virá inexoravelmente.

Cenário 3 (de baixa probabilidade)

Macri vira as eleições com as medidas populistas adotadas. Neste cenário, o governo continuado de Macri terá que convencer o mercado que fará o trabalho que não fez nos primeiros 4 anos. E as reformas serão muito mais difíceis de serem implementadas em uma economia mergulhada na recessão e em alta inflação. Para convencer o mercado o ajuste deve ser ríspido e ser consensual no economia (judiciário e legislativo apoiando), o que gerará ainda mais dificuldades econômicas.

Quais as conclusões para a Argentina?

Por fim, não esqueçamos que o CDS Argentino atingiu somente 50% de sua máxima histórica com a atual crise. Se os cenários mais prováveis tornarem-se realidade, novas máximas históricas serão buscadas e, assim, muito provavelmente veremos o peso romper a barreira de 100 unidades por dólar.

Nesse artigo tratamos sobre as ecpectativas para a economia Argentina agora em período de eleições. Para seguir acompanhando importantes conteúdos econômicos, acompanhe o conteúdo que tratamos sobre a relevância do Risco Brasil!