Artigo Quinzenal Gap
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Os juros, o COPOM e o mercado

A reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do BC) desta última quarta-feira, dia 20 de junho, foi uma das mais esperadas dos últimos anos. Desde a última reunião do comitê, em maio, quando o presidente Ilan havia sinalizado a continuidade da queda da meta de Selic e puxou o freio de mão, mantendo o juro estável, dando uma ‘curva’ no mercado e machucando muita gente, o COPOM ficou extremamente pressionado a subir os juros básicos da economia.

Durante este período entre reuniões, a curva de juros futuros se elevou substancialmente. O contrato com vencimento em janeiro de 2020 (jan/20), que capta a trajetória dos juros de hoje até o final de 2019, chegou a apresentar taxas de 9,50%, precificando elevações de juros de 6,50% ao ano para 12% ao ano (taxa é trazida a valor presente) até o final de 2019. As precificações da reuniões ao longo de 2018 também explodiram e, em certo momento, atingiram elevações de 50 pontos base (0,50 ponto percentual) em todas as cinco reuniões restantes do ano, ou seja, meta de Selic sendo precificada a terminar 2018 em 9%. Se considerarmos que o mercado derivativo de DI (curva de juros futuros) chega a movimentar R$ 100 bi por dia, houve muito dinheiro envolvido nestas apostas.

 

Qual o cenário no momento?

 

É claro que neste meio tempo a taxa de câmbio, que subiu cerca de 10%, e a greve dos caminhoneiros, que paralisou a atividade econômica do país, atrapalharam bastante e foram outros dois componentes utilizado pelo mercado para pressionar ainda mais o BC a subir juros. A resposta que a autoridade monetária sempre deu ao longo do período foi de que não há relação mecânica entre taxa de câmbio e taxa de juros e que a política monetária, isto é, a flutuação da taxa de juros, estaria adstrita somente aos efeitos secundários da alta da taxa de câmbio e da elevação dos preços pela escassez da greve.

Qual o argumento do mercado para toda esta pressão? Da mesma forma que Argentina e Turquia, dentre outros emergentes, tiveram que subir fortemente os juros para segurar a desvalorização cambial, o Brasil terá que fazer o mesmo. Apesar de estarmos em uma situação de inflação corrente baixa, a questão fiscal se deteriora rapidamente e a solução é elevar juros para que não haja fuga de capital. Qual o argumento do Banco Central? A economia brasileira vem se recuperando da sua maior recessão e a melhora é apenas gradual, fazendo com que o excesso de ociosidade (desemprego alto, máquinas paradas, etc) seja muito grande. Neste contexto, pressões inflacionárias, isto é, elevação generalizada de preços não acontecem e é preciso manter a taxa de juros atual abaixo da taxa de juros de equilíbrio (taxa de juros neutra).

 

O que acontece a partir de agora?

 

A decisão do Copom nesta reunião foi de manter a meta para a taxa Selic estável em 6,50%, como ele mesmo havia sinalizado desde a última reunião de maio. O Copom reconheceu que o cenário externo continua desafiador, mas afirmou que a elevação de preços em razão da greve dos caminhoneiros será forte, mas temporária e que o alto grau de ociosidade da economia fará com que a elevação dos preços por pressão cambial seja baixa. Ou seja, não autorizou nem desautorizou altas no futuro próximo. O mercado continua pressionando, sem mostrar alívio substantivo no prêmio da curva de juros futuros. Quem ganhará esta guerra? Somente o tempo dirá.

O que temos até agora são muitos players de mercado machucados e não estamos ainda nem próximo da parte quente das eleições. As apostas são grandes, muita gente sairá ferido neste embate, inclusive a economia. Aqueles que aguentarem até o final, em geral serão recompensados.