Como a crise na Turquia pode afetar os fundamentos da economia brasileira?

O mercado financeiro vem mostrando pesada preocupação com o andamento da crise econômica que afeta a Turquia. Na última semana, a Lira turca perdeu cerca de 25% de seu valor e a desvalorização ao longo do ano é de quase 3 dígitos. Além disso, há um enredo diplomático entre Turquia e EUA, que levou a uma taxação por parte dos norte-americanos nas importações de aço e outros produtos exportados pela Turquia.

Os efeitos sobre o nosso mercado já são sensíveis. O real perde valor frente ao dólar e bate na casa dos R$ 3,90/US$. O índice Ibovespa vai novamente abaixo dos 77 mil pontos e a curva de juros dispara em um movimento parecido com o que aconteceu no início de junho, durante a greve dos caminhoneiros. A questão que paira nesta nova onda de volatilidade é se a crise na Turquia será suficiente para mexer em nossos fundamentos e se a deterioração será permanente.

A Turquia é uma economia sobreaquecida e macroeconomicamente desequilibrada.

O crescimento econômico turco foi muito forte nos últimos períodos, especialmente em 2017, onde o PIB cresceu cerca de 7%. O afrouxamento macroprudencial para o mercado corporativo de crédito externo está por trás do fator que impulsionou temporariamente a economia. Com juros baixos na Europa e o afrouxamento interno, o incentivo para o setor corporativo turco tomar empréstimos externos foi muito forte. A entrada destes recursos, além de ter causado um enorme déficit em conta corrente (cerca de 6% do PIB), teve como consequência uma sobreoferta de produtos na economia. O déficit público, que girava na casa de 1% do PIB ao longo dos últimos anos, deteriorou-se para 1,6% do PIB nos últimos períodos. Nesse contexto de vários desequilíbrios macroeconômicos e crescimento excessivo, a inflação, que estava entre 5% e 10%, subiu para acima de 15%. Mesmo com as taxas de juros básicas sendo elevadas de 7,25% para 16,25% ao ano, os juros reais estariam extremamente baixos e a política monetária bastante frouxa para atacar o tamanho do desequilíbrio causado na economia.

A questão política na Turquia também é desafiadora.

O presidente Erdogan, que está no poder há mais de 15 anos, praticamente retirou a independência (formal) do banco central turco ao anunciar que a política monetária é controlada pela presidência do país e não pelo BC. Também anunciou que o BC não subirá juros e ameaçou as empresas que trocarem a Lira por moedas internacionais. Além disso, há uma questão diplomática com os EUA em torno da prisão de um pastor norte-americano na Turquia, que fez com que o presidente Trump elevasse bruscamente as tarifas de importação de produtos turcos, fragilizando ainda mais sua conta corrente.

A Turquia se tornou um prato cheio para o mercado

Com todos os desequilíbrios macroeconômicos aflorando, a política monetária congelada e sem uma direção específica para a política fiscal, a Turquia mostrou estar sem defesas frente às forças de mercado, e o alvo específico óbvio é a taxa de câmbio do país. Da maneira que está acontecendo a desvalorização da Lira turca, a inflação ao longo dos próximos meses será galopante e a elevação dos juros algo inexorável. Alguma ajuda internacional não tardará.

A crise na Turquia não tem forças para desestabilizar os fundamentos da economia brasileira

A economia brasileira encontra-se bem mais equilibrada do que a turca. Nossa inflação está na casa do 4% ao ano. O hiato do produto causado pela recessão de 2015/16 é um dos maiores da história e, mesmo com desvalorização cambial, dificilmente teremos inflação muito forte nos próximos períodos. O Banco Central do Brasil tem feito um trabalho razoável em trazer as expectativas inflacionárias para uma âncora, o que permitiu reduzir os juros e mantê-los em patamares baixos. Ou seja, caso necessário, há espaço para elevar as taxas básicas de juros sem necessariamente causar um choque monetário. Nosso déficit em conta corrente em relação ao PIB é praticamente zero, vem declinando fortemente e o saldo é totalmente financiado por investimentos diretos. Mesmo com a desvalorização que temos observado do Real, o Brasil tem um desempenho cambial positivo quando comparado à maioria dos países emergentes. E, por fim, mesmo que nossa dívida venha crescendo e o déficit público ainda seja elevado e de difícil superação, houve melhora marginal do ponto de vista fiscal nos últimos períodos. Além disso, temos uma eleição e uma forte expectativas por reformas nos períodos futuros.