View Blog 179
View Blog 179

Saiba porque o mundo teme uma recessão global

A preocupação com o cenário mundial não começou na última semana, embora tenha sido bem mais discutida nos veículos populares de notícias agora, principalmente pela inversão da curva de juros nos Estados Unidos.

Mas afinal, você sabe porque falam que podemos estar à beira de uma recessão global? O motivo não é apenas um, e o contexto que estamos inseridos hoje é mais complexo do que imaginamos. Então, decidimos simplificar ao máximo para você entender o que está acontecendo no mundo. Confira!

O problema não é de hoje

No ano de 2018, o Ibovespa acumulou uma alta de 14,9%; número que surpreendeu principalmente pelo momento não propício em que o resto do mundo estava inserido. Os principais índices americanos, por exemplo, fecharam o ano de 2018 no vermelho

O Dow Jones, índice que reúne as 30 ações mais líquidas da Bolsa de Nova Iorque, acumulou queda de 5,6% – o pior ano desde 2008, quando despencou 33,8%, pela forte crise financeira que atingiu os mercados após o estouro da bolha imobiliária nos EUA -. Também, o S&P500 recuou 6,2% – novamente foi o pior ano desde 2008 – e a Nasdaq, a bolsa de tecnologia, teve queda acumulada de 3,9% – também seu pior resultado desde a crise -.

Se pensarmos que os Estados Unidos é a grande economia mundial e que influencia em grande escala mercados emergentes, como o próprio Brasil, é de surpreender que conseguimos descolar significativamente do restante do mundo, para performarmos tão positivamente no ano de 2018.

Mas claro, vivemos em mundo globalizado e ainda somos uma economia de terceiro mundo. Nosso momento político pode estar favorável nesse ano de 2019, pela visão do mercado; estamos otimistas com as reformas que os investidores querem e precisam para ajudar no estímulo da nossa economia novamente e voltamos a crescer – mesmo que em passos lentos – após 2 anos de recessão. 

Mesmo assim, nosso mercado de capitais vem sentindo dificuldades em não refletir e sentir o peso que o mundo está vivendo atualmente. Mas afinal, o que está acontecendo e porque o medo de entrarmos em uma recessão global está batendo à porta?

Fique de olho nos dados…

Bom, não podemos tratar de possíveis acontecimentos, se não mostrarmos dados que os embasam, então vamos lá!

Em uma pesquisa da Duke University / CFO Global Business Outlook, realizada em 7 de dezembro do ano de 2018, 82% CFOs entrevistados (do total de 212 empresas dos EUA) sinalizaram que os diretores financeiros estavam pessimistas quanto aos lucros das empresas. 

Eles projetaram um crescimento de 4,5% nos lucros para os próximos 12 meses. Para você ter uma noção e poder comparar, eles projetaram quase 13% somente no mês de setembro de 2018. Os gastos de capital, as contratações e as estimativas de receita foram todos reduzidos.

Agora o mais impressionante: 82% CFOs disseram, naquela época, que acreditavam em recessão econômica para 2020. A expansão econômica, que já dura uma década, poderia chegar ao seu fim.

Sim, o pessimismo dessa pesquisa é de certa forma surpreendente, até porque os economistas convencionais projetaram um crescimento estável, embora mais lento, para todo esse ano de 2019. O que deixaria o cenário de recessão para 2020 um pouco distante. Mas calma que temos ainda mais alguns dados de 2018 que precisamos lembrar.

E nos sinais do mercado 

Continuando na mesma pesquisa, a porcentagem de CFOs que relataram dificuldade em contratar e reter funcionários qualificados, aumentou para um recorde histórico (lembrando que essa pesquisa existe desde 1996).

Ainda, no começo de dezembro de 2018, a S&P Global Ratings alertou que “sinais de resfriamento poderiam estar emergindo” na economia dos EUA. A empresa de classificação de crédito aumentou suas chances de recessão nos próximos 12 meses para um intervalo de 15% a 20%, de 10% para 15% em agosto daquele ano.

Quer mais um dado para relembrar? O JPMorgan Chase estimou que as chances de uma recessão ainda em 2019, com base em uma combinação de dados econômicos e sinais do mercado, subiram para 36%, um aumento de 11 pontos percentuais; tudo isso no final do ano passado (estava em 25% em setembro daquele ano). 

Wall Street sentiu

A expansão econômica iniciada em junho de 2009, é a segunda mais longa da história americana. Em julho de 2019, ultrapassamos o boom de 1991-2001 como a mais longa expansão já registrada.

Mas Wall Street começou a sentir um peso diferente, fruto de uma desaceleração econômica, evidenciada pela onda de vendas e extrema volatilidade que infecta o mercado de ações, até o momento que estamos vivendo.

O S&P 500 teve, final do ano passado, seu pior trimestre desde de 2011, até então. Os bancos, que estão especialmente expostos a problemas econômicos, despencaram. Agora, sabe o Russell Price, economista chefe da Ameriprise? Ele concedeu uma entrevista à CNN Business e falou, também no ano anterior, que não estava preocupado com uma recessão para 2019, nem começo de 2020, a menos que ocorresse piora em questões como a Guerra Comercial e aumentos agressivos do FED da taxa de juros dos EUA. 

E bom, nossa situação atual não é uma das melhores que já vivemos.

A situação mundial atualmente

Se alguém perguntasse hoje o que mais pode estressar o mercado financeiro, no caso, nossa Bolsa de Valores, eu diria que seria um misto de crescimento lento da nossa economia; reformas (tanto previdenciária, quanto tributária); a situação crítica da Argentina (nos impactando por sermos parceiros comerciais), a guerra comercial (e aqui entra tanto o impacto negativo que ela causa nos dados de produção da China, quanto nos dados de produção dos EUA, quanto as preocupações futuras dos estragos que ela pode trazer, principalmente após cada tweet duro do presidente Trump) e apontaria para a própria economia dos EUA, que vem aumentando o protecionismo, que querendo ou não, têm ajudado a aumentar o desaceleramento global. 

Mas vamos lá, sobre os problemas da nossa casa, até o presente momento, estamos fazendo nossa lição, de pouco em pouco. Podemos dizer que a reforma previdenciária está bem encaminhada, e estamos – mesmo que em passos lentos – voltando para um cenário de crescimento econômico. Eu especifico bastante como os mercados, principalmente Wall Street, têm nos vistos atualmente e quais nossos próximos desafios, no artigo “Porque para Wall Street o Brasil está de Volta?” Confira para entender melhor nossas questões domésticas.

Sobre a Argentina, o que podemos esperar é que a situação caótica que o país está vivendo há anos, e que só vem piorando, melhore e nos afete o mínimo possível. 

Agora, sobre os problemas que envolvem os Estados Unidos e a China, a situação é mais preocupante.

O que a economia Chinesa mostra

O desempenho da economia chinesa também é motivo de preocupação. Podemos citar tanto problemas próprios do país, como o alto nível de endividamento, excesso de capacidade em algumas indústrias pesadas, o mercado imobiliário, quanto consequências que a própria Guerra Comercial vem causando. 

E claro, ela é responsável por parte da decisão, de organizações internacionais, de reduzir as projeções para o crescimento global.

O que a economia americana mostra

O corte de impostos ajudou a impulsionar a economia americana em 2018, mas o impacto da medida tende a enfraquecer gradualmente. O Federal Reserve aumentou a taxa básica de juros quatro vezes no ano passado, a última delas em dezembro, em 0,25 ponto percentual, para o intervalo entre 2,25% e 2,50%. A alta dos juros ajuda a controlar a inflação, mas afeta o crescimento da economia, ao incentivar a poupança e reduzir consumo e investimento em produção.

Os aumentos foram criticados pelo presidente Donald Trump como prejudiciais à economia do país, o que acabou gerando preocupação de influência indevida do líder americano, ameaçando a independência do Fed, que recebe do Congresso a responsabilidade sobre a política monetária.

E quem acompanha os noticiários, sabe que após quase todo discurso do Powell, Trump acaba criticando fortemente, o que ajuda a alimentar o sentimento de aversão ao risco do mercado financeiro.

Mas claro, como não comentar as tensões comerciais entre os Estados Unidos e a China, com aumento de tarifas, que afetam o resto do mundo e que já haviam provocado uma revisão para baixo nas projeções anteriores do FMI para a economia global, divulgadas em outubro do ano de 2018?

A inversão da curva de juros dos Estados Unidos

Agora vamos para a notícia que apavorou o mercado financeiro: a inversão da curva de juros dos EUA. Mas se você não entendeu muito bem o que isso significa, não se preocupe, vamos te explicar da maneira mais simplificada.

Pense na curva de rendimento como um dos cartomantes mais confiáveis ​​de Wall Street. Isso porque a inversão ocorreu antes de cada recessão nos EUA nos últimos 50 anos. 

Bom, a ideia de que essa inversão indica uma recessão vem do fato de que a curva de juros está diretamente relacionada à expectativa de inflação. Isso quer dizer que o yield (rendimento) de longo prazo tende a ser maior que o de curto prazo, porque a expectativa “normal” é que a economia cresça, e com isso, a inflação avance.

Mas, pensa que se nesse cenário, o título de curto prazo agora está maior, é sinal de que o mercado está precificando que a inflação de longo prazo será menor do que está hoje, mostrando que a expectativa é que a economia não cresça.

Enfim, a diferença entre os rendimentos de dois anos e de dez anos do Tesouro, agora se inverteu porque as taxas de curto prazo são mais altas que as de longo prazo. 

Bom, se estamos mesmo entrando, ou não, em uma recessão global, os próximos meses irão mostrar. 2017 e 2018 acabaram sendo anos bons para as principais economias. Talvez o que estamos vivendo hoje seja simplesmente uma desaceleração em relação há dois anos ótimos.

Esperamos que a B3 consiga descolar o máximo possível desse cenário, porque o momento que estamos vivendo no nosso mercado de capitais, é histórico. Mas enquanto notícias como essas balançam nosso mercado, podemos aproveitar e garantir “o lote mais barato” para a próxima máxima histórica que alcançaremos. Fique de olho!

Gostou desse artigo? Deixe seu comentário? Também, confira O impacto das notícias do cenário americano no nosso mercado.

Graduanda em Ciências Atuariais pela UFRGS, associada à Apimec Sul e Produtora de Conteúdo na Nelogica. Têm como motivação diária descomplicar a linguagem do mercado e levar conteúdo de qualidade para que os brasileiros sejam cada vez mais educados financeiramente, e acreditem que qualquer pessoa possa investir na bolsa de valores.
  1. Vamos lá:
    1 – o Brasil só perde espaço na exportação devido à incompetência do governo. A guerra comercial China- EUA já está ajudando na área das commodities agrícolas, mas os preços estão extremamente achatados então nada feito.
    2 – o Brasil depende do consumo interno, já que pouco exporta. O desemprego segue em níveis elevados e as reformas só fazem reduzir a capacidade financeira da população. Portanto, tudo caminha para que o ano de 2019 termine com PIB negativo. Este fato irá apenas comprovar o status do país, que passou de recessão para estagflação / depressão econômica.
    3 – a indústria brasileira: que indústria? Só tenho isto a comentar…deste tópico
    4 – Está havendo uma crescente falta de liquidez no dólar. As empresas brasileiras não conseguem mais rolar suas imensas dívidas no exterior, onde o juros baixo é muito favorável. As empresas estão agora sendo obrigadas a tomar empréstimos no mercado local a juros nada amigáveis.
    5 – O Banco Central a partir do dia 21 deste mes começará a queimar as reservas do país diariamente, injetando dólar físico no balcão para ajudar estas empresas, e isto só trará mais problemas para o Brasil conforme a crise mundial for piorando. As reservas, que já foram acima de 400bi em títulos americanos, já caíram consideravelmente com os swaps cambiais e o endividamento dos bancos locais em dólar.
    6 – o real problema do país sempre foi a ESCORCHANTE TAXA DE JUROS, um problema que convenientemente nunca é sequer mencionado pelos governos nem por voces da mídia, e que enriquece poucas famílias locais de banqueiros. Sem este enfrentamento, o país em poucos anos quebra de vez.
    7 – a privatização das empresas traz um alívio de curto prazo nas contas do governo, mas cria um problema sem saída no médio / longo prazo. Sem a receita delas, como a Petrobras, o governo dependerá exclusivamente dos impostos. Já vimos isto acontecer em Portugal e na Argentina, onde o problema do endividamento não foi resolvido e os países continuam com uma dívida que acelerou ao depender apenas de impostos dos cidadãos, destruindo a classe média e transformando o país em uma nação de pobres.

    1. Ivan, seus comentários são muito interessantes e agregam ao debate.

      Temos diversos outros artigos sobre mercado, na categoria “Mercado e economia”. Bom proveito, abraços!

  2. Gostei muito desse artigo e o que fala sobre os cortes nas taxas de juros. Informações importantes, que foram passadas em detalhes e simples de entender.
    Parabéns, Tay e Nelogica, pelo excelente conteúdo disponibilizado aqui no blog!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Solve : *
3 − 2 =